sábado, 21 de julho de 2018

OLD SCHOOL – BOAS MANEIRAS OU VELHARIA?



(*)“Queridos amigos,

Tive a maravilhosa experiência de completar duas semanas acompanhando Antonia Bennett (sim, filha do Tony) no famoso Café Carlyle no Hotel Carlyle. Além de ser minha primeira chance de tocar naquele hall sagrado, também foi a primeira vez que fiz uma tournée de duas semanas num mesmo local em Nova York. Isso me deu uma visão interessante sobre o que costumava ser uma parte normal de qualquer perfil profissional de músicos – a temporada de show em um hotel.

Foi ótimo, por duas semanas, vestir um terno e ir para um dos últimos bastiões da antiga gentileza de Nova York.

O Carlyle é “Old School” (escola antiga) em todos os sentidos da palavra - a hierarquia dos garçons, todos em uniformes codificados para suas funções. Os bons modos no atendimento, a elegância da “old school”. Rígido e esnobe e, nestes dias, basicamente anacrônico.


Café Carlyle  NY

O que eu gostei foi que primeiro os clientes jantaram.  Em seguida foi servida a sobremesa que terminada, foram servidas as bebidas pós-jantar e, somente então, o show começou.

Alguns clubes de jazz (que devem permanecer sem nome) devem tomar nota de como isso é feito: Primeiro jantar, depois o show - não jantar enquanto o show está acontecendo. 

Não há nada mais angustiante em ter passado a maior parte de sua vida estudando sua arte, de modo que, quando você finalmente começa a tocar, há um cara gordo que corta seu bife bem na sua frente – falta de classe!

Talvez os velhos tempos não fossem ótimos, mas havia algum decoro que fazia sentido que, se você procurar bem, ainda existe em nossa cidade.
Estou feliz por ter sentido esse gosto.

Saudações,
Spyke

(*)Tradução livre do texto de Michael "Spike" Wilner no Newsletter dos clubes de Jazz  Small’s & Mezzrow – NY, 5 de junho de 2017

Spyke é músico e um dos sócios que reabriram o Famoso Clube de Jazz de New York, “Small’s” que fica na 183 W 10th St, New York, NY 10014 (esse clube vai ser assunto em outra oportunidade aqui no “blog do BetoRocco” .

Hoje o assunto é “Old School Experience in Jazz”

Boas maneiras? Bom!
Requinte? Seria bom. 
mas...  pelo menos um mínimo de cerimonia.

Um bom local para os músicos:

Palco ou um praticável elevado onde o grupo possa se posicionar de forma a facilitar a visão pelo público e permitir a interação entre os  músicos com sinais durante a apresentação;
Iluminação adequada;
Som de palco se necessário para que “todos ouçam todos” e se possa alcançar equilíbrio natural do volume e dinâmica da música.


Rita Wilson no Cafe Carlyle

Um bom local para o público:

Confortável, com visão da cena e boa audição de toda a música apresentada.

Se em ambiente de Restaurante, um serviço impecável, sendo servido o que foi anunciado, no horário prometido, para que, quando começar o show se esteja na fase dos “after-dinner drinks

Se em ambiente de teatro, boas poltronas, conforto, visão, acústica, etc.

Tudo o que vai acima são “condições ideais” para se ouvir a música singular que é o Jazz.

Uma combinação não muito fácil de encontrar hoje em dia, e mesmo longe das expectativas da maioria do público de agora que busca locais com música ao vivo.

Consequentemente, os fornecedores (músicos inclusive), sensíveis a essa “análise de valor”, - cliente tem sempre razão - retiram da oferta aquilo que não poderá ser pago ou mesmo entregue.

Alguns hotéis de classe e clubes de jazz pelo mundo ainda podem oferecer essa receita quase completa. Dentre eles o “Carlyle” NY.

O “Café Carlyle NY” chega divulgar no site o que me pareceu um "manual para frequentar o ambiente" disfarçado em FAQ - “Frequently Asked Question” que pode ser acessado clicando “aqui” (infelizmente o link está fora do ar).

Rigorosamente “Old School” já não se pratica há tempos. Quem ouve atentamente álbuns gravados em Clubes de Jazz, por exemplo: o antológico “Sunday at The Village Vanguard - Bill Evans Trio” (NY 1961) ou Jim Hall – Live in Toronto – 1975, reconhece alguns ruídos de conversas e de serviços que vazam para a gravação.

Há pouco tempo recebi um pequeno trecho gravado - sorrateiramente - pelo celular, de uma apresentação em um Jazz Club em NY, e... (surpresa!) lá estava o indefectível som do 'pic pic pic' dos talheres no filet mignon... , em um dos mais famosos clubes de Jazz de NY!!!  

Mas, “Old School” continua sendo meu sonho (impossível?), algum dia chegarei lá!


Small's Club NY

Enquanto isso vamos nos deliciar com uma verdadeira apresentação de "Old School": (com jazz da melhor qualidade)





Marian McPartland (piano), 
meu grande ídolo Joe Morello (bateria) 
Vinnie Burk  (contrabaixo)



domingo, 1 de julho de 2018

BOTH DIRECTIONS AT ONCE (um pé no passado e outro no futuro)



Nos anos 1960 John Coltrane já era talvez o mais influente saxofonista da era “pós-bebop”. Além de carreira solo, colaborava  também em álbuns de outros grandes inovadores de seu tempo como Thelonious Monk (piano) e Ornette Colleman (sax). Esteve presente no “Kind of Blue” o mais importante álbum de Miles Davis
Sua sonoridade e seu estilo “modal” de tocar ouvido em seu Álbum de 1960 “Giant Steps” o colocou como dono de um novo estilo de tocar saxofone que influencia músicos de jazz até hoje.

John Coltrane

Ao lado de sua carreira como inovador, levando o jazz a novos caminhos nunca trilhados, também tocava baladas e os standards, produzindo diversos álbuns no estilo como líder e mesmo colaborando com outros artistas.

Coltrane gravou cerca de 154 Albuns, cerca de 60 como colaborador ou co-líder.

Both Directions at Once - “Um pé no passado e outro no futuro” pode ter sido a melhor definição da obra de John Coltrane.

A Gravação

Em março de 1963 Coltrane estava tocando em uma temporada de 15 dias no clube de jazz Birdland. Iria também gravar o antológico álbum de baladas standards do jazz com o cantor Johnny Hartman no famosíssimo “Van Gelder Studios” . Tocaria com seu quarteto clássico: McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria).
John Coltrane Quartet no Van Gelder Studios

Mas na véspera da gravação, o quarteto foi ao estúdio e produziu, como que em um ensaio, um robusto material de jazz instrumental, contendo várias composições originais, e outras nunca antes gravadas. Aparentemente a sessão teria sido informal pois, ao final, Coltrane levou o material para casa.

O Álbum Perdido de John Coltrane

As fitas ficaram guardadas por 54 anos com a família de Coltrane até o selo de jazz “Impulse!” obter a permissão para lançá-las comercialmente. O que aconteceu em 29 de junho de 2018.

A obra foi editada em formato LP, CD e Stream, contendo sete composições com material original, dois deles sem nome, vários “takes” alternativos de um mesmo tema, materiais riquíssimos para os “jazzófilos” e interessados em música.
Será também o marco de relançamento do selo de jazz “Impulse!”. - um grande “impulso” para jazz.   

Both Directions at Once, o mais importante lançamento de Jazz dos últimos tempos. 

Nas palavras do grande saxofonista, contemporâneo de Coltrane, Sonny Rollins: “Isso foi como achar uma nova sala na Grande Pirâmide”.

Será também o marco de relançamento do selo de jazz “Impulse!”. Certamente um grande “impulso” ao jazz.   




Playlist de John Coltrane no Spotify

Preparei uma Playlist que apresenta Coltrane dos standards para a inovação. Do passado para o futuro.

Começamos com 2 faixas do Álbum com o cantor Johnny Hartman
depois, 4 faixas com grandes temas imortalizados por Coltrane, sedo os 2 primeiros de sua autoria.



Se você foi até o fim dessa primeira playlist, prepare-se! 
Abaixo está o Álbum Perdido